História do Rock – o poder das flores (parte 3)
História do Rock – o poder das flores (parte 3)
História História do Rock – o poder das flores (parte 3)

História do Rock – o poder das flores (parte 3)

Um dos acontecimentos mais importantes do século XX, da História da Humanidade e, de viés, da História da Música foi a Guerra do Vietnã. Por conta da Guerra e seu questionamento, sobretudo por parte dos jovens, um desejo de mudança e defesa da liberdade e dos direitos civis.

Fruto cultural e intelectual do movimento Beatnik, os anos sessenta agruparam sob a mesma bandeira da paz e do amor (representados volta e meia pelos hippies) diversos tipos de segmentos sociais, com o objetivo de construir um mundo cujas fronteiras fossem delimitadas por valores arraigados em princípios humanitários e pacifistas, e nos quais interesses de dominação e supremacia, seja ela qual fora, não pudessem ser utilizados como coetâneos de bem estar social e democracia.

A voz dos anos sessenta obteve seu eco e sua amplitude por meio do Rock, e aqui se formaram as raízes do que seria efetivamente um divisor de águas em termos culturais e também musicais. Um novo modo de viver exigia uma nova trilha sonora.

Não há como negar que a grande voz da geração dos anos sessenta e que incorporou as tensões de sua época de maneira brilhante foi Bob Dylan, tanto por seu trabalho individual – se é possível falar assim em meio a tanta coletividade – como por ser influência a diversos outros artistas. Há inúmeros depoimentos – de Jimmy Hendrix até os Beatles – que apontam Bob Dylan como um talento único e um divisor de águas entre a cultura e a contracultura.

Mas Dylan não foi o único artista relevante dessa época, é possível dizer que os anos sessenta foram os mais profícuos e prolíficos de toda a história da música do século XX. A produção cultural – e isso se refere a outros meios que não apenas os musicais e inclui desde a Literatura e até o Cinema (o que iria requerer um capítulo à parte) foi tão intensa que chega a ser difícil fazer escolhas do que foi mais relevante.

Um aspecto curioso, no que diz respeito à História do Rock (que agora se afirmava como estilo autônomo e ao mesmo tempo como música pop, numa relação estreita que adotava um caráter mercadológico e ao mesmo tempo criativo – a indústria cultural, evidentemente, percebeu que se tratava de um excelente nicho de mercado e, mesmo com inúmeras possibilidades de editoras e gravadoras independentes, a maneira de divulgar e de produzir música se tornou em todos os aspectos uma atividade lucrativa e profissional) é que o movimento atingiu os dois lados do Oceano Atlântico, englobando vários países e continentes. Sobretudo nos Estados Unidos e Inglaterra, o rock se estabeleceu com foça total, claro, com algumas diferenças.

Já falamos a respeito dos diferentes caminhos que o Rock seguiu, anteriormente, convertendo-se em música pop pasteurizada nos Estados Unidos e atingiu a Inglaterra de um modo diferente, portanto, passados esses momentos, agora haverá um tipo de unificação e, sob interesses comuns e com uma partilha de conhecimentos que outrora não ocorrera de maneira tão consciente.

A relação entre os artistas produziu parcerias e sonoridades que se tornaram referenciais utilizados até os dias de hoje. O fato de haver um intercâmbio entre músicos dos dois continentes foi muito significativo para isso.

Outro fato significativo que representou um passo adiante na maneira como se fazia e ouvia música e que potencializou seu alcance foi o desenvolvimento tecnológico. A construção de instrumentos deu um salto qualitativo por esses tempos, assim como os meios de gravação e de reprodução de música e, claro, as pesquisas de novas sonoridades exigiu ao menos alguma criatividade

Isso é claramente perceptível na maneira como a sonoridade se modificou e se implementou ao longo de todo esse período.

Experimentalismos como o do Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles e Pet Sounds, dos Beach Boys são os exemplos mais evidentes, embora viagens sonoras e psicodélicas sejam bem acentuadas em outros trabalhos como Freak Out, do The Mothers of Invention ou Surrealistic Pillow, do Jefferson Airplane.

Muitos frutos desse experimentalismo e psicodelia surgirão de maneira mais intensa nos anos setenta, com o desenvolvimento do Rock Progressivo (mas, chegaremos lá).

Mesmo as canções que poderíamos considerar mais “tradicionais” dentro do gênero – talvez, seja até correto falar de “gêneros”, também evoluíram consideravelmente com a utilização da tecnologia, um bom exemplo é Electric Muddy, de Muddy Waters – que fez a cabeça de ninguém menos do que Jimmy Hendrix (uma das figuras centrais da época e que depois de um passado como músico de acompanhamento de Little Richard e Wilson Pickett desenvolveu possibilidades sonoras com a guitarra nunca antes vistas ou ouvidas).

Diversas bandas e músicos iniciaram e desenvolveram suas carreiras por esses tempos, os exemplos são inúmeros, alguns com fôlego até os dias de hoje, como os Rolling Stones, por exemplo.

Muitos desses artistas estabeleceram diálogos diretos com a tradição onde se enraizou o rock, o Blues e o Rhythm and Blues, inclusive regravando inúmeras canções, além de produzir coisas inéditas, mas baseadas em argumentos e características utilizadas numa época anterior.

Para citar apenas um nome, basta lembrar de como Eric Clapton se tornou uma lenda e usou de sua influência para resgatar a obra de Robert Johnson, um dos nomes mais lendários e emblemáticos do blues.

O resgaste de outros artistas – aqueles mesmos que haviam sido deixados de lado pelo surgimento da música pop, também foi comum entre outros artistas da época, sendo, enfim, reconhecidos como as figuras de real importância no surgimento do Rock. Nomes como Willie Dixon, Muddy Waters, Howling Wolf voltaram à tona e aos toca-discos dos jovens e, inusitadamente, ecoaram com as novas vozes e assim o Rhythm and Blues e o Rock fizeram as pazes.

Algumas canções da época se tornaram emblemáticas (a lista é muito longa) e comumente ouvimos um ou outro hit em filmes que procuram retratar os anos sessenta, concomitantemente a isso, o surgimento de álbuns temáticos também criou uma nova maneira de ouvir música – o próprio fato de criar músicas longas, como uma das maneiras de procurar escapar das garras da indústria cultural exigia um novo tipo de meio de execução, assim os discos Long Plays foram uma resposta à altura, permitindo também a consonância de trabalhos artísticos de uma natureza não apenas musical, mas visual. As capas dos álbuns passaram a representar conceitos que serviam como um modo de expressão e de bandeiras para disseminar valores e critérios artísticos.

Os anos sessenta muitas vezes parecem ter durado mais de uma década, principalmente, se considerarmos que muito do que foi produzido ainda soa fortemente diante de nossos olhos e em nossos ouvidos.

Mas, como nada dura para sempre, John Lennon foi claro ao dizer: “o Sonho acabou!”, mas, podemos dizer que se fechou com uma chave de ouro. O Festival de Woodstock – há ao menos um grande documentário a respeito, representou a síntese de valores sociais, culturais e artísticos, porém foi o fim de uma era, que deixará ainda alguns frutos na década seguinte.

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